O problema é que como agora estamos 'com tempo', mamãe e papai acabam fazendo 'a besteira' de pensar. Besteira nesse caso porque não há mais o que ser pensado à respeito de fazer ou não fazer a sua cirurgia. Tentamos de tudo, fomos a médicos diferentes, discutimos o assunto entre nós e com profissionais, repetidas vezes... Não temos dúvidas quanto à realização. Mas o problema é que estamos aqui sofrendo por antecedência por causa desse intervalo ocioso, imaginando como vai ser depois da cirurgia.
Ontem mesmo, fiquei horas à noite na internet, navegando por blogs, sites, vendo fotos, lendo artigos... e tem sempre algo que ainda não sabíamos e que pode vir a ser assustador no futuro. Sei que não é muito bom fazer isso, eu mesma já falei sobre como o 'google' pode ser nocivo em algumas ocasiões, mas também não posso deixar de buscar informações, de procurar conselhos e ler experiências de quem já passou ou está passando por uma situação parecida. Minha impressão e, pelo que vi de muitas outras mães também, é a de que médicos e cirurgiões no fundo não sabem ao certo do perrengue que pode ser o pós-operatório porque por mais que eles tenham o know-how e a técnica, não têm a vivência. Só quem vive na pele a experiência de cuidar de uma criança pequena recém-operada é que pode mesmo falar sobre o que pode dar errado e, melhor, dar dicas de como tentar evitar isso. Por isso, leio mesmo. Tudo o que posso e tô já cheia de anotações e sugestões do que fazer em possíveis intercorrências. Espero que isso nos ajude um pouco.
Mas existem outros medos que fogem um pouco de questões práticas. E que só vamos descobrir depois. Tenho bastante receio, por exemplo, de você passar a não aceitar mais seu leitinho no copinho que você vem bebendo tão bem nos últimos tempos. Sei que ele por si só não é suficiente para a sua nutrição completa, mas ficaria muito triste se você perdesse esse hábito. Sei lá, não sei se a sensação de comer, após a cirurgia, se tornará uma coisa estranha, se você ficará empanzinado com a dieta que será ministrada pela gastro... Enfim, você tem tantas questões sensoriais, sua sensibilidade é tão à flor da pele, que tenho medo do que uma mudança interna aí no seu aparelho digestivo possa fazer....
Outra coisa que não sai da nossa cabeça é o lance de mexer no seu corpinho tão perfeito. Fico te olhando depois do banho, com a barriga tão branquinha, tão lisinha... morro de dó de pensar que daqui a pouco terá ali um corpo estranho com bordas avermehadas e, no futuro, uma cicatriz. Sei que tudo isso é besteira perto do que a desnutrição pode estar causando ao seu desenvolvimento global, mas é impossível não ficar um pouco tristinha por pensar que meu filhote lindo vai ganhar um troço feio na barriga.
Bom, passadas essas lamentações normais, mas que não vão nos levar a lugar nenhum, a gente sempre acaba chegando à conclusão que é isso aí mesmo e que estamos prontos pra luta. Ainda que assustados por não sabermos muito bem o que nos espera.
Sabe quando eu realmente fiquei 'tranquila' quanto à decisão de fazer a cirurgia? Quando o último médico que nós fomos, o Dr. Cesar Junqueira - gastro -, me falou no telefone, da última vez que liguei para contar que você havia parado de comer de novo, que agora não tínhamos mais o que esperar mesmo, a gastrostomia era a solução. É que quando fomos lá a primeira vez, eu e papai fomos logo falando: 'não somos contra a gastrostomia, mas...' e ele nos interrompeu e disse: 'mas eu sou'. Após uns segundos de silêncio, ele se explicou e falou que era contra a gastrostomia, sem antes tentarmos de tudo para que a coisa continue acontecendo da maneira natural. Ah... nós também, claro! E assim tentamos de tudo. Por isso, se ele chegou à conclusão que é o jeito, me sinto mais segura também de achar a mesma coisa. Uma decisão com respaldo de um médico que não chegou querendo te cortar. Pelo contrário, que nos incentivou a tentar milagres...
Mas a palavra-chave de todas as nossas angústias é essa: natural. Acho que o que mais incomoda qualquer pai e mãe nessa situação é isso: ir contra a natureza. Criar um mecanismo estranho e 'feio' para alimentar seu filho. Alimentar. Algo tão básico, tão natural...
Só que, pra nós aqui, o natural não estava nos levando a lugar nenhum, perereco. Então, que venha o artificial. Não será a primeira vez que vamos recorrer à ciência para te ajudar. Então, que deixemos o chororô pra lá e temos mais é que agradecer à medicina por criar alternativas como essa.
Certo, biscoito? Como a mamãe falou, só estamos dando espaço para essas crises porque estamos aqui meio ilhados e entediados. Sem poder sair pra você não piorar e esperando os dias passarem. Aí, já viu, né? Ambiente perfeito para criar abobrinhas. Quero ver quando estivermos aqui, tendo que colocar a mão na massa, com sonda, curativos, tendo que te divertir, te distrair... se vai sobrar tempo para lamúrias... vamos é querer cair na cama, quando der. E quando a gente menos esperar, a tempestade passa e vamos voltar a uma rotina mais equilibrada. Ah, sim: e felizes da vida porque você vai estar pesando 11kg!!!