Mas deixa eu me explicar.
Seguinte, perereco, eu e papai sempre soubemos que, apesar de aparentemente o seu cognitivo não ter sido afetado e de você sempre ter se mostrado bastante esperto, ele poderia acabar ficando um pouco pra trás também. Não por causa de alguma lesão, mas pela falta de experimentação normal que uma criança passa. É que os sistemas motor e cognitivo 'andam' juntos. Você precisa experimentar para aprender. E sem conseguir experimentar na hora e da maneira corretas, a coisa pode acabar dando uma desandada. Não que isso não possa entrar no eixo mais pra frente, mas até lá, o cognitivo acabaria meio prejudicado.
Pois bem. O que podemos fazer por você? A resposta parece simples: estimulação. Mas não é tanto quando existem tantas outras variáveis envolvidas. Só pra citar a principal delas, o cansaço. Estímulo gera gasto de energia, gera esforço físico, gera logística de deslocamento... Enfim, com o aumento de propostas e atividades na sua vida, as consequências também aparecem. No ato. Meu maior medo é te exigir demais e causar coisas como a volta das crises, perda de peso, estresse emocional.
Por isso... a máxima do equilíbrio continua valendo para nós, Antonio Pedro. Mamãe precisa colocar tudo na balança e quebrar a cabeça para achar um cálculo preciso e satisfatório pra você e, muito importante, pra mim também. Sim, porque já sabemos que com a mamãe ansiosa e estressada, nada funciona direito. Aquela história de que eu preciso estar bem pra você é a mais pura verdade. Vivo ouvindo isso e confesso que já tiveram vezes em que quis voar no pescoço da pessoa. Pensava: 'como se eu não soubesse disso... como se isso fosse fácil de controlar... queria ver se fosse com você...' Mas nos meus momentos de clareza, sei que 'eles' têm razão. E sei também que falam para o meu bem, para me alertar, para nos ajudar.
Mas... de tempos em tempos, eu me enbanano e perco a mão na nossa matemática. Na ânsia de querer fazer a coisa certa, acabo tomando decisões erradas.
Como a de te colocar três vezes por semana na pré-escolinha, praticamente ao mesmo tempo em que iniciamos a natação. Você não está dando conta. Notei já na semana passada, mas quis observar mais nesta semana para ter certeza. E o fato é que hoje é quarta e você já está exaurido.
É cedo ainda para eu exigir tanto de você, meu amor... E olha que você já me dá tanto, já mostra tanto potencial, já dá tanta resposta... O mamãe insaciável... Não é, Antônio Pedro. Aliás, é justamente por você ser sempre tão interessado, tão ávido por experiências e conhecimento que eu acabo puxando demais sem querer.
Mas o problema é que tudo para você é um esforço. Justamente por você ser tão esforçado. E aí, pitoquinho, você acaba se cansando querendo fazer tudo o que ainda não consegue. Junto a isso, até coisas como comer e beber líquido da mamadeira são verdadeiras ginásticas pra você. Pois sabemos que a questão motora também pega na boca.
Outra coisa complicada é fazer funcionarem os horários de comer e de dormir junto com a hora certa de sair para as atividades. Tem o deslocamento, trânsito... E o que acontece é que nem sempre sai tudo como planejado e aí é uma enrolação só. E você precisa comer e descansar direito. Não podemos abrir mão disso agora de jeito nenhum! Fora que eu fico totalmente estressada tentando encaixar tudo certinho. E mamãe estressada... não serve!
É isso, pacote. Fomos com muita sede ao pote. Mas já me reorganizei aqui e decidi voltar a minha ideia inicial que era mesmo ficar só na aulinha de música, uma vez por semana. Por hora, é o que vai dar. Além, claro, das 'tias antingas' e da natação duas vezes por semana, que acaba não sendo tão cansativo porque a água te favorece e você ama de paixão.
Não que, mais pra frente, a gente não possa tentar mais coisas de novo, meu amor. É só que a mamãe sente que você precisa de tempo não só físico, mas emocional também pra absorver e se reorganizar a cada vez que insiro novas atividades, sabe? Temos que ir com uma certa calma. No seu tempo.
Pra finalizar, uma coisa muito importante. Seu pai, quando conversei com ele sobre isso tudo, na hora me perguntou se eu não estava 'desistindo' pela tal frustração que contei aqui de ver como você não acompanhava as outras crianças e pelos olhares das outras mães. Filho, não. Juro que não. Como falei, senti isso sim, mas porque sou humana. Mas nunca, nunquinha, eu iria tomar uma decisão dessas se achasse que não era o melhor pra você. Eu nem sei mais quem eu sou direito sem você, Antonio Pedro. O que eu sinto quase não importa, diante do fato de fazer algo pelo seu bem, pelo seu progresso.
Estamos combinados? Beijo da mamãe, seu cara de sapeca.